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Resenha da Jornada Extraordinária- A psicanálise e a liberdade da palavra- NEL - Sede Caracas- Julho 2017

No dia 23 de julho de 2017 tivemos a grata visita de nossos queridos colegas Guy Briole, Secretário do Bureau da AMP e de Clara María Holguín, Presidente da NEL, a quem agradecemos a decisão de vir à Caracas em nome da causa analítica e participar de nossa Jornada Extraordinária "A psicanálise e a liberdade da palavra". Fizeram-se presentes na Escola membros, associados, estudantes, profissionais psi e de outras áreas do conhecimento para dar o justo lugar à palavra e à escuta, para celebrar, como bem expressou Gustavo Zapata, "nosso primeiro ato de resistência".

Além disso, em sua fala de boas-vindas, Gustavo Zapata lembrou dos eventos históricos do movimento psicanalítico que tiveram Caracas como cenário: desde a caracterização que fez o próprio Lacan como o lugar mais propício, durante o Encontro sobre o ensino de Lacan na América Latina, em 1980, passando, doze anos depois, pelo Encontro de Caracas, em 1992, onde lançou-se a Associação Mundial de Psicanálise, que deu lugar à consolidação da Orientação Lacaniana no mundo da psicanálise. Agora, trinta e sete anos depois, Caracas volta a ser lugar propício para o Encontro da Orientação Lacaniana, desta vez para "levantar nossa voz contra [o] empenho [do Mestre] em arrebatar do sujeito sua liberdade de palavra".

A primeira mesa de trabalhos esteve a cargo de Guy Briole, Cristina González e Carlos Márquez.

Guy Briole, em seu texto intitulado A palavra embargada, indicou a necessidade de refletir sobre o lugar da psicanálise quando se produz na sociedade "uma deriva sem lei", que incita o sujeito do "angustia-me mais" do gozo singular ao "todos em filas angustiadas" do gozo do Um totalitário, fazendo um percurso pelo sinistro Instituto Serbsky para tratamento da dissidência na URSS. Distinguiu o sintagma liberdade da palavra do sintagma liberdade de palavra e, neste último, sublinhou sua acepção orientada para a liberdade de expressão. À diferença deste, refere que liberdade da palavra, sua liberação, demonstra que a palavra em si mesma é objeto de encarceramento e, o ato do analista em uma análise, apontará para desmontar a defesa e libertá-la. Nesse sentido Briole ressalta que "a liberdade da palavra é uma afirmação de si".

Cristina González expôs o trabalho que vem fazendo com jovens universitários que participam ativamente dos protestos na cidade de Caracas, com os quais desenvolve a prática da conversação, oferecendo assim "um espaço para dar a palavra ao sujeito". Seu ponto de partida é que esses "jovens se encontraram presos entre o pai da horda primitiva, encarnado pelos governantes e um pai humilhado e impotente". Ressalta ainda que, mesmo que "o declínio do pai não seja exclusivo da sociedade venezuelana", valeria a pena tratar de explicar o efeito desse declínio na presença do Mestre não castrado, a "polarização entre o pai castrado e o mestre não castrado". Desse modo, destaca que a posição ética da psicanálise é "resgatar a força da palavra e do desejo", é "não ficar dormindo". Com seu trabalho não só deu lugar à ação lacaniana, mas também a esse grito dos jovens que deu título à sua contribuição: "Pai! Não vês?".

Carlos Marques trabalhou os conceitos de heresia e abjuração, título de sua intervenção. Enquanto a primeira assinala que "do mesmo modo que a profissão de fé, a heresia é uma fórmula de linguagem que em si mesma constitui um ato e com esse ato diz algo do que se é, assim que, seja pela vertente do enunciado ou pela da enunciação, na heresia se enodam o que se diz, o que se faz e o que se é". Quanto à abjuração, assinala: "em relação ao desejo, uma vez reconhecido como próprio, a abjuração torna-se pequena e o arrependimento é um excesso. Porque o desejo é a escolha". Também assinala que a liberdade da palavra, como exigência própria de cada experiência psicanalítica, "requer algum grau de capitalismo democratizado. É nessa estreita margem que o sujeito pode responder à demanda de abjurar de sua própria heresia, fazendo uma inversão".

Na segunda mesa de trabalhos contamos com as intervenções de Clara María Holguín, Ronald Portillo e Gerardo Réquiz. Sua moderadora, Julieta Ravard, marcou a introdução do segundo percurso de trabalhos, com a regra fundamental enunciada por Freud: "diga tudo o que lhe ocorre sem censura". Assim, acentua que o inconsciente é um fato de palavra, a inscrição da letra no inconsciente nos faz seres falantes. Devolver a palavra ao sujeito, essa palavra presa, é uma ação que permite converter o que foi silenciado em um ato sustentado na ética do bem-dizer; essa é a palavra que se solta, que revela uma verdade e introduz mudanças.

Em "O exercício da liberdade da palavra", título de seu trabalho, Clara María Holguín expressou estar comovida frente ao desejo dos colegas venezuelanos de pôr em ato a política lacaniana. A partir desse lugar, desenvolveu o discurso psicanalítico, recordando-nos que Lacan, em uma conferência dada em Bruxelas nos anos 1960, afirmava que "a psicanálise é constituinte de uma ética que seria aquela de que nosso tempo necessita". Expunha, também, que frente ao campo da política, "o discurso psicanalítico se propõe como seu avesso, um modo inédito de fazer laço social frente à possibilidade da morte".

Nas palavras de Ronald Portillo e em seu texto intitulado "O Um e o mestre do poder", a conjunção do discurso analítico com a política dá-se enquanto esta última não é aquela assumida como exercício de dominação, inscrita no discurso do Mestre, mas como recurso para fazer laço social. Deste modo, pontua que o discurso do analista e a política, entendida em termos de laço social "se apresentam como as armas que tem a civilização para compensar os efeitos marcadores do gozo do Um, próprios da expressão da pulsão de morte".

Gerardo Réquiz intitulou sua intervenção "O líder e a massa na situação da Venezuela". Inicia sua intervenção destacando o ponto preliminar de que em todo tratamento da política e da psicanálise há um nó entre política e palavra e que, caso esse nó se frature, qualquer coisa pode acontecer. Assinala o insuportável que pode ser, não só para os analistas na cidade, mas para todo cidadão que queira viver em um país democrático, que o exercício da liberdade da palavra esteja em perigo. Destaca que, nesse momento, a pergunta fundamental é "Onde está o líder?". A esse respeito, a psicanálise aporta elementos fundamentais, mais além das razões sociopolíticas e econômicas. A psicanálise aponta, principalmente, "para considerar a tendência à satisfação imediata. A busca de satisfação imediata determinará a relação da massa com o líder". Ao mesmo tempo, explica que na identificação ao ideal há necessariamente certa denuncia do objeto da pulsão colocado no lugar da liderança. Ressalta a pergunta: "Onde a massa põe a libido hoje em dia? Trata-se de uma questão crucial, dado que o laço social sustentado na identificação deixa um saldo de gozo que o líder não consegue satisfazer".

Finalmente, no encerramento, Sergio Garroni destacou a presença da AMP e da NEL, encarnadas em Guy e Clara, como um ato de amor, como "o triunfo do amor da transferência positiva para com a psicanálise". Além disso, ressaltou o valor de resistência diante da tentativa de abolir o sujeito, e como, através do ato de resistência que constituiu a Jornada, os psicanalistas não se calaram frente ao Mestre.

Carla González


FAPOL - MOVIDA ZADIG
zero abjection democratic international group

Rede de Incidência Política

(Zadig na Argentina)

O primeiro número da Revista a movida Zadig, publicado por Jacques-Alain Miller recentemente em París, nos convida a incluir nesta rede com sua precisa "tábua de orientação" em torno de textos de Lacan, Voltaire, Weil, reproduzidos no final desta secção em sua versão castelhana.
Para fazer parte dessa rede, que se propõe a impulsionar a incidência da psicanálise na política, é condição não ser filiado a nenhum partido político. No caso de ter decidido filiar-se, quem fizer parte desta rede deverá comunicá-lo e renunciar a ela.
NÃO é condição para se incluir na rede ser membro da EOL.
No momento, fazem parte da Rede de Incidência Política (Zadig na Argentina) dois nós de trabalho: "A liberdade do desejo" e "Política-Extimidade".
A liberdade do desejo
Coordinação: Jorge Chamorro, Lito Matusevich, Leonardo Gorostiza, Graciela Esperanza, Flory Kruger y Daniel Millas.
Contato: florykruger@gmail.com
Política-Extimidade
Coordinação: Mónica Torres, Aníbal Leserre, Gustavo Stiglitz, Guillermo Belaga y Osvaldo Delgado.
Contato: stiglitz.gustavo@gmail.com
Os que desejarem manifestar já seu interesse em participar de algum desses grupos devem enviar um e-mail a um dos endereços eletrônicos acima indicados.
Em breve será difundido um boletim de inscrição.

Comunicado Rede Zadig Brasil
Não render suas armas diante dos impasses crescentes da civilização, faz parte das iniciativas e ações da comunidade de trabalho que se formou no espaço próprio da Escola Brasileira de Psicanálise. Assumimos de modo decidido a criação da Rede Zadig no Brasil sob o título de "Doces&Bárbaros" como mais uma de nossas bases de operações contra o mal estar na civilização. A diretoria executiva da EBP dará o apoio necessário ao funcionamento da rede assim como às suas ações. Os membros da EBP e os demais interessados, estão convidados a aderir através do formulário que segue nesse comunicado. A adesão será feita sob a condição de não estar filiado a nenhum partido político*. Anunciamos, desde já, a realização de um Fórum Zadig Brasil – Doces&Bárbaros no dia 18 de agosto em São Paulo no qual contamos com a viva participação de todos. O Local e o horário serão divulgados oportunamente.

Jésus Santiago, responsável pela Rede Zadig Brasil - "Doces&Bárbaros"

Ficha de adesão
Nome ______________________________________________________________
Profissão____________________________________________________________
Endereço____________________________________________________________
Cidade_____________________________UF__________________CEP__________
Telefone_( )__________________________e-mail__________________________

*A adesão será feita sob a condição de não estar filiado a nenhum partido político
Após preenchido, envie para docesebarbaros@gmail.com aos cuidados de Luiz Fernando C Cunha.

Rede Zadig Brasil "Doces&Bárbaros" – Grupos impulsores

Grupo Belo Horizonte (MG):
Jésus Santiago – Responsável por Zadig Brasil
Sérgio Laia
Ram Mandil
Sérgio de Castro
Simone Souto

Grupo São Paulo (SP)
Angelina Harari
Jorge Forbes
Luiz Fernando C Cunha (Diretor EBP)

Grupos Rio de Janeiro e Bahia –

Rio de janeiro
Ana Lucia Luterbach-Holk
Marcus André Vieira
Romildo do Rego Barros
Maria do Rosário C Do Rego Barros
Fernando Coutinho (Presidente do Conselho da EBP)

Bahia
Iordan Gurgel
Marela Antelo
Felipe Camargo
Bernardino Horne
Nora Gonçalves

A MOVIDA ZADIG DA NEL
Saudamos esse novo momento da AMP e da Escola Una, a movida ZADIG (Zero Abjection Democratic International Group) criada por Jacques-Alain Miller em maio de 2017.

ZADIG é uma interpretação para a psicanálise da época em que vivemos e a NEL acolhe e unifica este movimento que concerne à Escola e aos países que a compõem. Nosso ânimo é o de promover da melhor maniera o projeto proposto por JAM, que busta "fazer-nos presentes, não somente na clínica, na psicologia individual como diz Freud, mas na psicologia individual como coletiva, quer dizer, no campo político. Não como um partido político, mas como psicanalistas que podem contribuir com algo nseste momento da cultura".

As decisões tomadas por Jacques-alin Miller para a construção de ZADIG na NEL são, até o momento, as seguintes:

  1. Decisão 005 - Zadig na NEL - Raquel Cors, de Santiago de Chile, y Clara Holguin, de Bogotá, estão incumbidas de uma missão exploratória que concerne a ZADIG nos países da NEL. (LQ 702)
  2. Decisão 015 – Zadig-Venezuela - Sobre a missão neste país da NEL Raquel Cors, do Chile e Clara Holguin da Colombia criaram Zadig-Venezuela. Binário que irá impulsionar: Cristina Gonzales de Garroni, eleita por Jam e Gustavo Zapata, eleito pelos membros da NEL na Venezuela. O binário proporá os novos passos a seguir "encarregados da missão" que fazem refrência a Jam; ele tomará "l'attache" do Grupo Venzuela com Agnès Aflalo, Guy Briole e Ronald Portillo.
  3. Décision 017 – Declaraçào sobre a crise na Venezuela. – A situação do país continua se agravando. O fato da movida ZADIG estar em curso de criação não debe impedir que a organização manifeste solidariedade à população em geral e aos colegas, particularmente. Como consequência: 1) a redação de Lacan Quotidien abrirá uma nova seção que se chamará, em inglês, "Crise na Venezuela" e terá informações em diferentes idiomas e contribuições de nossos colegas do país. 2) A mídia franco-belga Le Réel de la vie criará todo o necessário para que, em colaboração com o grupo Venezuela e Zadig-Venezuela, possam alertar as mídias e as autoridades da França e da Bélgica, não se esquecendo do Parlamento Europeu. 3) Os grupos ZADIG em formação estão convidados a executar ações, mesmo modestas, para manifestar nossa solidariedade aos colegas.

Jacques-Alain Miller
Paris, 23 de maio 2017 às 16h15.

Raquel Cors e Clara Holguin


Campo Freudiano, Ano Zero
Por Jacques-Alain Miller
Paris, 11 de junho de 2017

A psicanálise acabará por depor as armas diante dos impasses crescentes de nossa civilização, como Lacan evocava em um dia de depressão ou de cólera, quando os notáveis de sua Escola, a Escola Freudiana de Paris, recusaram-se a avalizar sua "Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola"? Isso não está escrito.

As Escolas do Campo Freudiano são, desde há muito tempo, o que Lacan desejaria que fossem: o refúgio contra o mal-estar na civilização. Assim que as instâncias responsáveis pela Escola da Causa Freudiana, conduzidas por sua presidente, Christiani Alberti, e aquelas de UFORCA, a meu pedido, adotaram com entusiasmo minha proposta de tomar posição pública:

1) contra Marine Le Pen e seu partido;
2) pela democracia e pelo Estado de direito,

e que a grande maioria dos membros se lançou com energia em uma campanha nacional de Fóruns republicanos e anti-Le Pen, vê-se melhor como a ECF, franqueada por seus satélites, UFORCA, ACF, CPCT, poderá tornar-se o que, no momento de criar sua Escola, Lacan chamava, com uma energia que testemunhava, a meus olhos, o melhor do espírito guerreiro da nação francesa, "uma base de operações", visando, ao mesmo tempo, a reconquistar o Campo Freudiano em relação à IPA e triunfar sobre os impasses da civilização que ameaçam a própria existência da psicanálise. A atenção dada a partir de 1º de março deste ano ao combate político na França, entretanto, não me fez esquecer que hoje, através do esforço contínuo de várias gerações de analistas, não há somente uma Escola, mas sete: a ECF, a EOL, a EBP, a ELP, a SLP, a NLS e, última a nascer, a NEL.

Uma vez que Macron tenha sido eleito em 7 de maio – e imediatamente fosse reduzida a revolta local e subalterna vinda da EOL, que, de fato, fazia o mesmo papel que a frente dos notáveis em 1967, a saber, obstruir o movimento de avanço – pensei que seria conveniente transferir a uma escala mundial as lições da experiência francesa. Por isso, criei, em 14 de maio último, "a movida Zadig", ZERO ABJECTION DEMOCRATIC INTERNATIONAL GROUP.

Neste domingo, 11 de junho, dia seguinte da Conversação organizada na EOL por seu Conselho, sob a direção esclarecida de seu presidente, Gustavo Stiglitz, posso anunciar que o Campo Freudiano em seu conjunto está, de agora em diante, unido à Zadig.

A rede política lacaniana mundial não será confundida com a AMP, nem com suas Escolas, constituindo-se, antes, em uma extensão no nível da opinião.

Neste contexto, ela se beneficiará mundialmente do apoio de nossas instituições e fará parte do Campo Freudiano no sentido expandido do termo. Quanto aos procedimentos de Zadig e as causas que defenderá em escala nacional e transnacional, tudo está por ser inventado. Nossa iniciativa referente à crise venezuelana e à petição Pasolini são um começo. No enquadre fixado por minhas primeiras decisões, campo livre às iniciativas!

É, então: "Campo Freudiano, ano Zero". Tudo recomeça, sem ser destruído, para ser elevado a um nível superior.

Por um efeito de retroação, entendo agora porque interrompi meu curso em 2011. Foi consequência da queda de minha transferência com o Campo Freudiano, induzida pelo sentimento de fracasso que me habitava desde que pude constatar que o conjunto dos membros da ECF estava ligado ao projeto Freda, que se propunha a substituir o modelo de Escola promovido por Lacan por uma associação de psicoterapeutas ocupada em caçar subvenções e obedecendo às iniciativas de uma associação, a associação Aurora, conhecida por substituir, com seu dinheiro, as instruções do Ministério da Saúde. Esse projeto de liquidação estava a ponto de ser realizado quando, sozinho, coloquei-me no meio.

Além disso, o Campo Freudiano parecia ter atingido, em 2011, seu nec plus ultra. Eu via a mim mesmo como prisioneiro do mundo que tinha criado, esse Campo Freudiano regido pelos algoritmos com os quais o municiei e que funcionava sem mim, como eu tinha desejado. Não me restava outra coisa que triturar meu curso até a morte. A maldição do "prático-inerte" (Sartre) caíra sobre mim. Parar meu curso sempiterno parece-me, hoje, um esforço desesperado para escapar à petrificação e tornar a me enodar com o real da vida.

A página virou. Jam 2 retomará o curso de Jam 1 de uma forma renovada. Minha ideia é engrenar, de agora em diante, em meu trabalho, aquele de diversos coletivos do Campo Freudiano que se propuserem como voluntários.

Já está decidido que isso será feito na Itália sob a forma do "Seminário de Política Lacaniana" que dirigirei em Turim, em conjunto com Rosa Elena Manzetti, em 8 de julho próximo, depois em Roma, Bolonha e Milão, com Di Ciaccia, o casal Francesconi e Mazzotti, e Focchi.

Será o "Seminário Ponto de Estofo" (Point de Capiton) que decidi começar a partir de 24 de junho próximo em Paris, e que será filmado para ser colocado online. Será em Buenos Aires o "Seminário Clipol" (Clínica e Política), que proponho à aprovação dos colegas argentinos e que ocorrerá em dezembro próximo, por ocasião da viagem que farei a Buenos Aires para lá receber um doutorado universitário honoris causa, por iniciativa de Oswaldo Delgado, a quem agradeço. Em outro lugar, no Campo Freudiano, tudo está aberto.

Farei o balanço disso, durante a semana que começa, nas redes Zadig criadas ou em formação no mundo, na rede chamada «Canal do 1», no programa dos Seminários de Paris e de Turim, etc.

Eu estava lá com minha amiga Mireille Cardot — Lacan depreciou seu nome quando eu a apresentei a ele — quando Lacan leu, em junho de 64, perante menos de cem pessoas reunidas no salão de Sylvia, no número 3 da rue de Lille, sua « Nota adjunta» à Ata de Fundação. Após ter falado do «comitê de acolhimento chamado Cardo», ele disse isso, que permanece em mim como um desafio maior: «O sucesso da Escola será medido pela saída de trabalhos que serão admissíveis em seu lugar».

É disso que ele trata em seu Seminário desmultiplicado: inscrever para sempre o ensino de Lacan no discurso universal.

Tradução: Maria do Carmo Dias Batista
Revisão: Adriano Messias


Quadro de Orientação

O movimento Zadig
Zero Abjection Democratic International Group

Lacan, uma lição de política
"Suas palavras me impactaram…" por François Regnault
-"Suas palavras me impactaram mais do que você pensa", eu diria depois.
-"Impactado mais do que penso", disse o Doutor.
- "Exatamente", eu voltaria a dizer.

Estávamos sentados à mesa no pequeno departamento da rua L... à mesa os três, sua filha J*, frente a nós, seu genro A*, e eu do mesmo lado, quando ele entrou, "Freud" em pessoa.
Entrou lentamente com sua esposa, que veio sentar-se na outra extremidade desocupada da mesa. Levantei-me e fui cumprimentá-lo, sabia que ele tinha sido agredido dois dias antes por um malfeitor, um louco que queria seu mal, queria seu dinheiro e lhe havia dado um soco. Facilmente imaginei que não se tratava de fazer alusão a isso, nem mesmo me autorizar a um "confie em mim, estou com você nesta prova leve e consequente".
O soco lhe havia provocado uma contusão em sua garganta e sua voz sofria um enfraquecimento bastante significativo. Ele me disse boa noite e logo tomou o texto que seu genro A* havia preparado para os diários, respondendo a uma pergunta sobre a política revolucionária no estilo de 1789 e segundo os princípios de Jean-Jacques Rousseau.
Ele foi para a sala ao lado, em frente a onde eu estava sentado e de onde eu estava novamente parado esperando que saísse. Ele afastou-se, pedindo um pouco de paz, pedindo para deixá-lo desfrutar de uma ou duas horas de paz a que tinha direito, antes do jantar ao qual tinha direito.
A porta havia se fechado, e eu sei que até que ele voltasse, conservaria a impressão de que ele não estava na sala ao lado que eu conhecia, mas estava bem longe, inacessível, havia saído tanto do espaço como do departamento e não havia razão para que eu voltasse a vê-lo, pelo menos naquela noite.
Pois bem, uma meia hora depois saiu, e era evidente que ele queria chegar à porta pela qual um momento antes havia entrado, passando novamente sozinho, como uma procissão lenta, como o Santíssimo Sacramento em uma cidade espanhola onde, ajoelhado, haveria de esperar um dia inteiro o sol e as rosas, retirando-se como no famoso quadro da excomunhão do rei Robert, pela porta do fundo, todas as velas apagadas, o clero solene e indiferente.
Estávamos sentados à mesa, e quando ele estava chegando à porta, arrependeu-se, e – seja porque seu genro o houvera chamado, para um ponto do texto, ávido por um rápido comentário sobre seu artigo, ou porque talvez ele tivesse fingido que queria sair, e seu verdadeiro desejo era o de sentar-se frente a nós, entre nós, incitado a fazê-lo frente a mim – o estranho é que talvez em família houvesse renunciado a fazê-lo, ou até mesmo evitado – veio se sentar à nossa mesa, mas a título provisório, afirmando que o assento era apenas o apoio passageiro de uma palavra.
Ficou assim sentado à mesa entre nós, mas de viés, como a verdade em nós encerrada no marco rígido do jantar e no marco rígido – moral – da jovem e turbulenta revolução, seria necessário perceber de viés, já que ela iria distorcer singularmente a perspectiva na qual alvoroçávamos. Quando ele foi embora, nossos olhares, retirados do campo familiar, voltaram-se em direção à porta, e só então consideramos depois, como em Emaús, uma claridade em nossa noite, em torno de nossa terra errante, uma luz vinda de outro lugar.
Ele começou assim a falar com seu genro, sem me olhar, exceto ao final, e de soslaio, momento em que me sorria:
"Essas poucas linhas que lhe enviei em outro dia – haja ou não posto de lado muito claramente no momento em que, mudando de ideia, devia parar o parágrafo, não sei, – essas linhas deviam dizer-lhe o que eu não vou voltar a dizer aqui, e que seguem tendo valor mesmo tendo lido o seu artigo.
Eu sei, por vê-lo ao meu redor e ler os jornais, um pouco do que, no lado norte de Paris, são capazes de fazer as gangues armadas, estou bem ciente de que os assassinos – não são outra coisa – são empregados por C e consortes. Mas, entenda você, você nunca vai estar na cabeça de uma gangue de assassinos" (isso preparava a conclusão do discurso no qual ele diria quão fraco era seu genro frente à ordem do mundo).
Nesse momento, seu genro se inclinou para trás, um movimento que significava não tanto que ele teria um dia que estar também à frente de um bando, – que não diríamos de assassinos, melhor dizendo, autênticos justiceiros – senão mesmo revolucionário, nada do que é desumano deveria ser estranho. "Freud" continuou:
"É evidente para todos, nada é mais evidente, que a massa a que alega seu artigo, desempenha ali o papel do mestre, do significante mestre. O que você acha que se renova ali a não ser aquilo que sempre foi, e sob outros nomes do passado? (Ele se referia à república, o Rei). Em seu nome, que conserva imutável o antigo lugar em que se mantém o discurso perpétuo, você mantém o discurso hoje chamado de massa. Em seu nome você perpetua o discurso perpétuo, isso é evidente para todos.
De outra perspectiva, aparentemente, que rebelião você faz valer a pena? Você e os que o acompanham, ou que o seguem, como vocês são percebidos por aquele que, nem plebe nem massa, recebe com todo direito o nome de "popular"? O popular os percebe como rebeldes e, como não entende de rebelião, toma a sua como burguesa, como uma rebelião de privilegiados. Por que, que faz você, que é o que inclusive o que se pode fazer, mas à parte do popular, e na escolha das rebeliões dos privilegiados, expressar uma delas, pela via mais clássica, entretanto burguesa e privilegiada-solitária? Eu tenho outra maneira de atravessar minha rebelião, também de privilegiado, tenho outra via, e haja para você – deveria amá-la – outra via de atravessar sua rebelião de privilegiado: a minha por exemplo.
Só lamento que tão poucas pessoas que me interessam se interessem pelo que me interessa".
Ele não tinha falado da sua rebelião – da qual não falava nunca, não mais que daquilo que não falava jamais – somente porque seu genro A*, por uma palavra ou um gesto, tinha-lhe perguntado que saída – que não fosse para silenciá-la ou apagá-la – se abriria para a rebelião dos privilegiados, fora da via clássica. Seu genro A* devia ter alegado que o privilégio desapareceria quando a rebelião atingisse em seu direito a revolução, então ambas juntas, fariam cambalear o poder do Estado. O privilégio ficaria assim abolido. A percepção da plebe não se revelaria mais a estranha diferença à alma inocente. É por aí que "a minha, por exemplo," se apresentaria a este homem nobre e sentimental, em suas próprias palavras, e tendo-se na lista dos privilegiados, para conseguir que se identifique a sua rebelião, normalmente silenciada, como essencial e marginal ao mesmo tempo, excepcional e por isso mesmo verdadeiramente real, verdadeiramente real e verdadeiramente impossível, ele assim respondeu àquele que reconduzia idealmente suas forças junto às do povo.
Então, "lamento que tão poucas pessoas que me interessam...", marcava uma pausa, permitia uma distensão no discurso tenso, inteiramente construído com, como diria Aristóteles, um começo, um meio e um fim, como nos mostravam as últimas palavras, e embora, a cada momento tivéssemos a impressão – é quase certo – de falar à toa.
"O que vê a plebe nas suas trapaças? É que, no fundo, você quer uma polícia pudica. A Inglaterra, já há alguns séculos, resolveu a coisa muito bem. Sua polícia tem feito o trabalho sem atropelo, e o cidadão pode se considerar feliz por nunca ouvir falar dela. O que você quer, no fundo, é uma polícia sem devastação. Você e os seus reprovam a polícia por ter saído de onde está habitualmente acantonada, e ter mostrado a ponta de sua essência".
Retoma: "Eu vi, no momento da Libertação, eu vi e não esquecerei jamais o momento em que os fantoches de então se faziam passar por grandes reconciliadores – e eu te perdoo e deixo isso passar – e não lhes impedia de atirar-se nos pés de todos – eu vi a polícia que acabava de fazer o trabalho dos Alemães, sustentar com seu coral as novas reuniões eufóricas e Claude Bourdel e x e todos os outros pavonearem-se à frente, e atrás deles, o coral da polícia soprando as tubas atrás deles precisamente no traseiro".
Retomava assim a ideia justa e verdadeira que já tinha ensinado: quando um novo ditador acede ao Estado, seja em nome do povo ou contra, suas primeiras palavras ao povo são sempre: "E não creiam agora que irão se divertir: Agora começa o esforço. Agora é o reino da seriedade".
Continuou: "Hegel não foi muito longe para dizer que a polícia é a essência do Estado. Nem mais nem menos do que isso, sempre e necessariamente".
Muitas vezes se trata da URSS e da China. Seu genro A* falava-lhe tanto sobre a URSS como sobre a China, mas estava dito que seu genro A*, nessa noite, não tinha a palavra. Não fazia falta a sua intervenção. Muito menos quanto ao fato que o doutor teria caído nas armadilhas da sua argumentação por havê-lo deixado muito tempo, um minuto, falar, porque o que importava era que eles não foram mais que floreadores do seu próprio discurso, estritamente falando, como pontos de apoio para limitar seus meandros, as intervenções do outro, e que foram conservadas com a solenidade da sua admoestação, toda a sua receita improvisada e sua retórica rigorosa e abandonada.
E, além disso, ninguém naquela época poderia indicar ao mesmo tempo a URSS e a China sem, ao evocar a URSS de 1905 ou 1917, excluir totalmente a China e, ao evocar a China, trazer imediatamente o fato de que sua contemporânea URSS atenuava, anulava os efeitos do glorioso 1905 e do glorioso 1917. Então, ninguém podia, com um único ponto de apoio, colocar os dois termos de uma vez, e esse saltinho, que uma análise mais demorada ou simplesmente mais um ou dois argumentos teriam provavelmente assentado, para grande otimismo da lógica e da história, a razão, por sua inevitável sinceridade, ao Doutor "Freud": desse modo se experimentava, no discurso, a impossibilidade de dizer ao mesmo tempo URSS e China sem rir, assim, o exemplo de 1905-1917 inaugurava imediatamente uma história na qual a que havia se tornado digna seguia imediatamente a outra que, por outro lado havia se tornado indigna, enquanto que a indignidade da primeira imediatamente lançava uma suspeita sobre o futuro da segunda; desse modo a polícia retomava sempre os seus direitos para continuar suas malfeitorias milenárias, e o breve movimento que se inaugurava às vezes no eterno ciclo da reação, que só iludiria quem fosse contemporâneo e o considerasse irreversível.
- "Eu sei que há tanta distância entre a China e a URSS como entre 1905 e o que Marx imaginava que seria uma revolução e isso confirma os movimentos possíveis, por vezes, da história, mas a dimensão que escolhi mostra que os movimentos ocorrem mais em repetições que num único movimento irreversível. Creia-me. Só o ciclo é irreversível, a história é que recomeça sempre absolutamente idêntica. Acredite, eu sei, e não só o que o tenho do exemplo da Liberação, que não houvera alcançado um único homem. E por isso, creia que você tem outra coisa a fazer em vez de responder a um folhetinista político (diminuía assim, voluntariamente, de forma injusta, a importância da resposta, e reduzia injustamente a toda vontade do seu genro por não ter feito mais que lhe responder a um folhetinista político). Faça algo diferente de dar respostas imediatas. Não é por acaso certo que eu faço coisas que só dão resultados dez anos depois? Compreenda então que, depois disso, eu não assino este texto como todos aqueles que acabam de assinar. É inútil lhe dizer que os respeito, mas somente os respeito, é tudo".
Ele então abordou outro ponto-chave: falou do dinheiro. "1917, China, disse, e entretanto, nada mais nisso tudo que o significante mestre absoluto, o dinheiro, o significante mestre aqui como lá, o capitalismo universal, em Pequim mesmo, nada conta senão o reconhecimento dessa marca". Mas quando disse Pequim, disse-o rapidamente, duvidando que se soubesse o que se passava ali, e sabendo que não poderia passar nada diferente dos outros lugares e sempre.
Uma subseção foi dedicada a Stalin a título de exemplo: O doutor havia se levantado nesse momento, já que ia chegar à sua peroração no final, mas não ainda. A retórica havia certamente alcançado, mas não teria conservado aquele caráter de improviso se ele tivesse se levantado no exato momento de concluir. Efeito muito simples e muito calculado; nessa circunstância familiar, porém, frente a um estranho, solene mas contingente, ele preferiu esse efeito de defasagem e de gravidade.
"Stalin, exclamou, era um bandido. Era um bandido. Era um canalha e era também um covarde inato, mas notem que Louis XIV não valia muito mais. Eu o vi na entrevista de Jukov, que apareceu recentemente no Le Monde, sobre a atitude de Stalin ao telefone, por ocasião da declaração da guerra (entre a Alemanha e a URSS após o pacto germano-soviético). E sua vacilação para responder, sua incerteza sobre o que deveria ter sido feito, não naquela hora, naquele minuto, ou naquele segundo, mas no seu pensamento imediato, mostrou que ele era profundamente covarde".
"E se eu não tivesse que fazer o que devia fazer" a – é assim que reestabeleço o que provavelmente o doutor queria dizer, mas ele só disse covarde inato e é assim que concluí isso, a partir do texto de Jukov, eu havia lido o texto.
Ele se voltou sobre a história, já que estava chegando ao fim de seu desenvolvimento e a peroração viria depois, curta e sublime: retornou à URRS e China.
"Provavelmente, de tanto em tanto – um Lenin em 1905-1917 e talvez a China de hoje, mas a China, você vai reconhecer, tem, apesar de tudo, outro passado
- Há um buraco no eterno retorno, e é divertido aproveitar esse furo e, no jogo da máquina, inventar o novo, não o impedirei se isso o diverte. Mas, de qualquer maneira, você irá fracassar…"
- "O que eu noto até agora o que obtive, diz seu genro A*, não é o fracasso, mas o êxito…"
- "… você fracassará porque a história sempre gira em volta. É a estrutura".
Ele havia chegado à conclusão, não precisava mais do que um ou dois acordes de resolução. Seu genro A* lhe propiciou a melodia.
- Por que eu fracassarei: porque sou uma só pessoa?
Nesse momento ele hesitou um instante para responder, não porque não conhecesse a resposta – bastou-lhe refletir um instante para conhecê-la – mas porque hesitava em dizê-la, e porque, em certo sentido, ela era inesperada:
- "As duas, respondeu ele. E acrescentou: Você é fraco, tenho escrito, e assim terminei escrevendo a ele, e por que não acabar com isso, dizendo a ele, diga-se a si mesmo que és fraco? Mais fraco do que eu, e eu o sou já bastante".
Ele voltou para a carta que havia escrito. Eu não queria fazer nada mais que reescrevê-la e sua preocupação pela construção, pela passagem ao ponto e à parte, pela unidade dos apartados, testemunhava que esse discurso e essa carta levando-os à sua estrutura, não eram senão uma única coisa, ou melhor, que nunca tinha sido nada mais do que uma carta.
E então ele se foi, se foi, chegou até a porta e se foi, não rapidamente, nem lentamente, nem bruscamente, nem solenemente, mas inexistente, ensimesmado, ensimesmado em sua dor talvez, ou talvez ensimesmado em sua ceia, ensimesmado em sua fadiga, ensimesmado em sua verdade. Ele havia falado, não era mais que o corpo que, em um instante, havia suportado, produzido, soprado essa palavra e agora era necessário apagá-la sem modéstia, desaparecer sem surpresa, sair sem saída. Disse-nos adeus, ou não nos disse, não sei "ele estava com seu corpo ou sem seu corpo," não sei, havendo dito a verdade, isso eu sei.
Era, entretanto a época em que a América iria reconhecer a China, e onde o tempo era o da revolução.
Escrito um ou dois dias depois dessa noite.

Tradução do Francês para o Espanhol: Graciela Esperança, junho de 2017.
Tradução do Espanhol para o Português: Antonia Claudete Amaral Livramento Prado, julho de 2017.

Pequena digressão, de Voltaire
A primeira impressão do texto é de 1766 em O filósofo ignorante, publicado em Genebra pelos Cramer. A versão em português reproduzida abaixo é de Mário Quintana e está no volume Contos e Novelas da editora Globo.

Logo no começo da fundação dos Quinze-Vingts sabe-se que os asilados eram todos iguais e seus assuntos se decidiam por votação. Distinguiam perfeitamente, pelo tato, a moeda de cobre da moeda de prata: nenhum deles tomou jamais vinho de Brie por vinho de Borgonha. Seu olfato era mais fino que de seus patrícios que tinham dois olhos. Aprofundaram-se perfeitamente nos quatro sentidos, isto é, ficaram sabendo acerca deles tudo quanto era possível; e viveram tranquilos e felizes na medida em que os cegos o podem ser. Infelizmente um dos seus professores julgou possuir noções claras sobre o sentido da vista; fez-se ouvir, intrigou, granjeou partidários; reconheceram-no afinal como chefe da comunidade. Pôs-se a julgar soberanamente em matéria de cores, e aí é que foi a perdição.

Esse primeiro ditador dos Quinze-Vingts formou primeiro um pequeno Conselho, com o qual se tornou depositário de todas as esmolas. Por esse motivo, ninguém se atreveu a resistir-lhe. Decidiu ele que todas as roupas dos Quinze-Vingts eram brancas; os cegos acreditaram; não falavam senão seus belos trajes brancos, embora não houvesse entre eles um único dessa cor. Como todo o mundo então começasse a zombar deles; foram queixar-se ao ditador, que os recebeu muito mal; tratou-os de inovadores, de espíritos fortes, de rebeldes, que se deixavam seduzir pelas opiniões errôneas daqueles que tinham olhos e ousavam duvidar da infalibilidade de seu senhor. Dessa querela, formaram-se dois partidos.

O ditador, para os apaziguar, baixou um decreto segundo o qual todas as suas vestes eram vermelhas. Não havia uma única veste vermelha entre os Quinze-Vingts. Riram-se deles mais do que nunca. Novas queixas da comunidade. O ditador enfureceu-se, os outros cegos também. Disputaram longamente, e só se reestabeleceu a concórdia quando foi permitido, a todos os Quinze-Vingts, suspenderem o juízo sobre a cor de sua roupa.

Um surdo, ao ler esta pequena história, confessou que os cegos tinham feito muito mal em querer julgar a respeito das cores; mas permaneceu firme na opinião de que só aos surdos compete falar de música.

O eterno Patapouf
Jacques-Alain Miller

1
Do que está escrito em francês, não há nada que eu prefira mais do que esta "pequena história". Seria sábio não dizer nada acerca dela. Não é tão límpida que tira o fôlego? É a medusa do Witz. Nos liberamos dela mediante o riso.

2
Freud vai buscar seus chistes nos Ana[1]. Ele pensa sobre as palavras espirituosas que se destacam, o que supõe que no resto do tempo a conversa não é verdadeiramente brilhante. Em Voltaire, tudo é Witz, estamos no elemento espirituoso, é a forma, a priori, de sua percepção do mundo.

3
Tudo está em quatro pequenos parágrafos, como no café de Lagoupille: uma política, uma metafísica (ao contrário), uma lógica, uma ética, e também uma estética que se exibe no estilo.

4
Ao reler esses dias os monólogos chamados "meu curso", vejo bem que, curiosamente, minha língua – minha versão de lalíngua –, leva a marca de Moliere e de Voltaire. Eu nunca soube fazer as coisas obscuras – a não ser trabalhar muito, na Escola Normal... Dizer rápido sempre me pareceu uma virtude. Mas a rapidez não é tudo: é necessário, para que eu fique contente, que se veja as relações entre os termos. Minha palavra é uma esgrima, coloco as botas, faço molinetes, me atiro afundo. Quem está na frente? Ninguém a que me refiro. É o eterno Patapouf, o inimigo de Voltaire.

5
Custou-me acreditar quando Maurício me disse que a Pequena digressão não existe em espanhol. Se esse fosse o caso, eu ficaria orgulhoso de tê-la feito circular na Argentina onde poderia fazer algum bem... É verdade que logo que a "ditadura" foi denunciada, foi soberbamente denunciada (nunca a tínhamos experimentado até o momento), tivemos Robespierre e Napoleão. Lacan não hesitava em recordar aos alemães captatio malevolentiae, aonde os conduziu o amor pela crítica até 1933. Lacan se posicionou sob a égide das Luzes, mas em política pensava com frequência como um romântico, e junto a isso, como o mais liberal do mundo.

6
Na École freudienne havia algo dos Quinze-Vingts. Isso tinha a ver, provavelmente, com os alunos da Escola, o diretor, ao contrário, era suficientemente voltairiano para ter dito: "Prescindir do Nome do Pai na condição de servir-se dele". Mas, enfim, isso não era um sucesso, esse sucesso...

7
Os psicanalistas estão condenados a falar do que não veem. É por isso que colocam tanta convicção, seja por terem a fé do carvoeiro ou por estarem carcomidos pela dúvida da qual se escondem. Os mais astutos, há tempos, não creem mais no inconsciente: de tanto servir-se dele, terminam por prescindir dele. Os mais astutos? Em psicanálise, são os mais débeis e se converteram necessariamente, diz Lacan, em canalhas (palavra da língua clássica). Stendhal é obcecado pela caça aos canalhas. Voltairiano durante a Restauração (ver o conto do encantador bispo Agde se benzendo diante do espelho). Ao invés de falar do que vocês não veem, falem do que escutam, e do que é falar e escutar, é o que diz Lacan substancialmente.

8
Há os cinco sentidos, certamente, e depois há a fantasia, o real do gozar, e o real do simbólico. Voltaire respeita o gozo, respeita as matemáticas, mas a fantasia do outro o faz rir. Ele diz: "Olhem um pouco para esses imbecis". Mas é ela, que não entende nada dos poderes da palavra, o que, no entanto, a Pequena digressão põe em cena. Seja com cinco sentidos a mais ou a menos, tudo é fantasia, diz Lacan. Poderia ser Voltaire.

9
Este é o mais borgeano dos contos de Voltaire. Falta muito pouco para que a Pequena digressão se torne "Tlön, Orbis, Tertius" ou "O Congresso". Só rir um pouco menos. Não chorar (isso é bom para os poetas do sentimento trágico da vida, de Pascal a Unamuno): ter compaixão, ter compaixão por si mesmo, quero dizer, lucidez. As Luzes eram os Quinze-Vingts, e Voltaire, seu ditador (já se disse). Pequena digressão não fala de outra coisa senão da ditatura de opinião. E se Voltaire pensou em si mesmo?

10
Borges, cego, falou sem hesitar das cores, eu ouvi. Do que deveria falar um cego? Como todo mundo, ele é um apaixonado pelo objeto perdido. Por que falar disso que está sob o olhar, sob a mão? É claro, só se fala do que está fora do alcance. Esses empiristas sempre querem fechar nosso bico. Voltaire era anglófilo, nisso ele se perdeu como Wittgenstein. "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar", essa sabedoria que é a da Pequena digressão, é um pouco estreita. Em Carnap é francamente a ditadura do peão. Ao menos Kant, por seguir no caminho de Voltaire, acrescenta: "...mas não se pode impedir de falar disso". "Falem do que vocês conhecem", pois bem, não se iria longe...

11
Por que Maximiliano está no horizonte? Por que ao tocar os semblantes, ao trazer a luz o fundamento de semblante do laço social, ao passar a crença pelo crivo dos cinco sentidos com o pretexto de tornar a sociedade razoável, se deslegitima os significantes mestres da tradição e a retribuição não tarda em chegar.
Joseph de Maistre mais verdadeiro que Voltaire... (provavelmente foi voltairiano, como o todo mundo antes de 1789). Mas, eis que a Restauração não funciona.
Chateubriand já sabe que isso acabou para sempre, que a ideologia científica derrotou a tradição. A Revolução, de fato, é o discurso da ciência em marcha (seu efeito catastrófico sobre os franceses).
Voltaire é seu São João Batista. Por acaso não havia feito de Newton seu novo Evangelho? Cartas filosóficas ou Cartas Inglesas. Uma Pequena digressão, Grande Revolução.

12
Em Veneza eu lia, em italiano, as reflexões de um húngaro.
Que lamentável – diz em síntese – que a unidade alemã tenha sido feita em torno dos Hohenzollern, esses toscos, grosseiros, novatos, e não em torno dos Habsburgos, que eram os nobres nos quais ainda se via o sentido da res pública e da soberania impessoal. Com o universalismo abstrato, chegou o nacionalismo e o reino fatal dos heróis. Napoleão, genuit Bismarck, que genuit Guillermo II, "falso monarca, per il quale l'esercizio del potere non é una funzione e un sistema di ruoli bensi un cimento romantico, eroico, spettacolare -, individuale"[2] e chega Hitler. István Bibó, inspirado em Guillermo Ferrero, sonha em 1942 com uma monarquia voltairiana, sonha com um rei filósofo. Paciência, hoje é a era do "não há ninguém". (cf, El Otro que no existe y sus comités de ética)

13
A grande dor dos liberais: "Por que, por que os homens não permanecem dentro dos limites da simples razão?"
Com exceção dos ingleses – que têm uma relação forte e sã com o real (salvo Carlyle...) que Lacan celebrava no pós-guerra –, os povos contam histórias.
A tristeza dos liberais franceses deve ser colocada na estante dos grandes afetos políticos ao lado das nostalgias legalistas. Os ingleses não creem nas "ideias" (os escoceses, muito menos, os americanos, em absoluto). Por isso mesmo dão o tom na IPA. Guardam suas crenças privadamente, como um pequeno delírio que não faz mal a ninguém, e sobre o qual não se alardeia. Se esse realismo saudável entusiasmou Voltaire, foi porque ele era francês. Imediatamente ele construiu um sistema radical como poucos, zombando de tudo, bancando o vivo. É isso, justamente, o que os ingleses não fazem: uma vez que as "ideias" se tornaram costumes e entraram na ordem das coisas, eles as respeitam como coisas que existem.
Quanto ao sublime "não" de 1940, deixa para trás os cálculos desimportantes. A anglofilia não é a "anglitude".

14
Os ingleses deixaram algum dia de se servirem do velho significante real? É a aposta do folhetim que apaixona ainda este verão. O discurso da ciência encontra sua realização nas aventuras sexuais de Lady Di.
A dialética tem essas ironias. Pascal chama de "nariz da Cleópatra" (é de Voltaire). A dialética sempre é irônica, e Hegel em primeiro lugar, como ilustrou Queneau. O domingo da vida quer dizer que já não há mais retóricos para enganá-los: fim dos poderes da palavra, fim da história, fim da "pequena digressão" (a "pré-história"), podemos começar a dormir. O sonho lógico-positivista e liberal: cada palavra em seu lugar, todos consumidores, desossados como Valentim.

15
A Pequena digressão é o Enchiridion do não-tolo. O que é o não-tolo? Aquele que zomba dos poderes da palavra. Ele acredita que não há senão semblante. Esta crença é errônea, e é aí que ele é débil, erra, e que, psicanalista (e, portanto, especula os poderes da palavra), torna-se um canalha. O real em jogo escapa, velado por seu riso. Voltaire, contudo, sabe que não se pode fugir disso isso, ver o topos do último parágrafo, sua cláusula infinitizante. Quando termina, isso recomeça – depois de um branco, riverrum, past Eve and Adam`s.
Por que essa repetição? Porque tornarem-se "entusiastas" ao invés de manterem-se "tranquilos e felizes"? A cegueira do conto é a castração. Sempre temos um sentido a menos. É o que quer dizer "não há relação sexual".

16
Esta Pequena digressão é uma blasfêmia. Os olhos são para não ver. O vidente sempre é cego (Tirésias). "Eu quisera saber o que veem os cegos", diz um psicótico (citado por Roger Wartel). A loucura das sátiras é desconhecer a força das coisas ausentes. Lacan não insistiu na via de "Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956" "...fez-se ouvir, intrigou, granjeou partidários; reconheceram-no afinal como chefe da comunidade". Meu Deus!, mas é toda a história da psicanálise... E, talvez, toda a história, teoria de incríveis carismáticos, seguidos pelas suas intermináveis coortes burocráticas – quando sua "pequena digressão" funcionou. A questão é unicamente durar. Quando o artifício está um pouco gasto, torna-se utilizável pelo gentleman, como o indica a anedota de Brummel... Felizmente, para a psicanálise, isso começou mal.

17
Ou tudo não é mais que teatro de sombras, ópera bufa, cenografia de semblantes, ou então, há o real. Talvez o real ame o semblante, assim como o Absoluto quer estar perto de nós (Hegel). A trajetória analisante da impotência ao impossível leva simultaneamente do trágico ao cômico. O passe é o Witz, inclusive o Limerick: precisa de uma piscadela (o olho japonês de Florencia). Como o surdo de Voltaire, ele aferra-se ao seu próprio real, que é justamente o que não pode conhecer... Se tudo fosse falso semblante, sofística, escroqueria, ainda restariam as matemáticas. Stendhal não respeitava nada além disso. Para ele ou se é matemático ou canalha – ou então emotivo, um pouco tonto, como seus heróis. Ah! Fazer do psicanalista um matemático... foi o sonho lacaniano.

18
A astúcia, tenacidade e valentia de Voltaire. Ele já havia feito tudo, em 1789 só restava aclarar. Como merece o ódio de Josesph de Maistre! Admirável potência do cético, a de nosso Lucien. Surpreendente entusiasmo do incrédulo (gozava em romper os odres). Foi celebrado pelo mesmo mundo do qual ele foi a ruína (ele não queria isso).

19
"Suspende" teu juízo onde falta a experiência sensível, e tudo andará melhor. A utopia liberal, a disciplina lógico-positivista, prolonga a ascese antiga. É uma maneira de se lidar com o Outro barrado – a falta de saber, renunciar ao ato.
Erasmo, Montaigne, Voltaire. Descartes não tem seu lugar na série porque ele "crê no real" (mas também conhece a potência dos semblantes sociais e diz: não toque neles). A psicanálise é cartesiana, não voltairiana. O Cogito vale para o cego, nada lhe proíbe as matemáticas, tampouco o divã.

20
O hospício para cegos transformado em asilo de loucos. A lição de Voltaire, sem a sátira, pode se resumir em um plano: "atenham-se aos fatos", que terminará por produzir um senhor Homais e, no melhor dos casos, o delírio positivista. (Auguste Comte louco como uma lebre... visitem seu "Chapelle de l`Humanité", em Paris, onde, às vezes, se reúne nosso Collège franco-brasileiro). A ficção se aferra ao fato como um carrapato à pele de um cão. Bentham, mais verdadeiro, mais sábio, mais Confúcio, mais prático que Voltaire, porque é um jurista.

21
"A razão desde Freud" é completamente diferente. É algo assim como: as Luzes mais o objeto a, para falar com Lenin que dizia: "Os sovietes mais a eletricidade", salvo que, com a eletricidade, os sovietes ainda se sustentavam; depois foi: "a eletrônica, menos os sovietes...".

22
É a hora do almoço. Penso em um Witz, que deve estar no Spicilège de Montesquieu, que diz aproximadamente: "Vocês se impedem de dormir para fazer filosofia, enquanto deveriam fazer filosofia para dormir bem".
Diversão desse domingo, 17 de agosto de 1997, em Paris.

Este texto foi publicado no n. 49 da revista Ornicar? Boletim do Campo Freudiano.

Uma versão comentada desse mesmo texto por Jacques-Alain Miller se encontra em sua última lição do Curso El partenaire-síntoma, p. 469-89.

Revisão da tradução do francês para o espanhol: Graciela Esperança
Tradução do espanhol para o português: Flávia Cera

 

Simone Weil, Lição diferente de política *
* Esse título é de JAM.

Extratos / Fragmentos da Nota sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos

A palavra partido é tomada aqui com a significação que tem no continente europeu. A mesma palavra nos países anglo-saxões designa uma realidade totalmente distinta. Tem sua raiz na tradição inglesa e não pode ser transposta. Um século e meio de experiência o demonstra bastante bem. Há nos partidos anglo-saxões uma ideia de jogo, de desportes, que somente pode existir em uma instituição de origem aristocrática; tudo é sério em uma instituição que, a princípio, é plebeia.

A ideia de partido não entrava na concepção francesa de 1789, somente como um mal a ser evitado. Mas, existiu o clube dos Jacobinos. A princípio era somente um lugar para conversar livremente. Não foi nenhum tipo de mecanismo irremediável que o